
Uma equipa de investigadores portugueses propuseram-se a construir uma proteína que mate as células com o genoma do Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e, se forem bem sucedidos, dentro de seis anos estará à venda o primeiro medicamento contra o vírus, «made in» Portugal.
A agência Lusa noticia que João Gonçalves da Faculdade de Farmácia e do Instituto de Medicina Molecular (IMM) e orientador do projecto ficou surpreendido com a atribuição do prémio da Fundação Bill & Melinda Gates que financiou a pesquisa, «não por a ideia ser arriscada, mas devido à concorrência que é grande», disse.
A trabalharem num laboratório com 12 pessoas, três delas dedicam-se apenas a este projeto que pretende «eliminar o VIH dentro das pessoas infetadas» e, assim, «curar a sida».
«No fundo, o que queremos é dar às pessoas uma proteína construída por nós no laboratório e que entre nas células das pessoas, encontre o genoma do VIH e mate as células com o genoma viral, não matando as outras», disse.
João Gonçalves sublinhou que, até ao momento, «todas as estratégias que têm sido feitas para lutar contra o VIH, nomeadamente as vacinas, combatem as proteínas virais, mas o vírus muda as proteínas».
«O que vamos fazer não é atacar as proteínas virais, mas encontrar no Ácido Desoxirribonucleico (ADN) do vírus as zonas que não mudam nunca», disse o investigador que explicou que «as proteínas vão identificar as zonas do VIH que não mudam, activando uma toxina para levar ao suicídio das células com o genoma viral».
Esta é «uma abordagem totalmente diferente» ao nível dos tratamentos contra o VIH e, segundo João Gonçalves, representa um desafio, mas baseado na experiência: «Não somos novos nesta área». «Temos dados que nos permitem dizer que o grau de sucesso vai ser elevado», avançou.
Projecto foi escolhido entre 2500
O projecto «Nanotechnology against viral latency: Sensor strategies to eliminate HIV-1 infected cells» foi escolhido entre 2500 apresentados para financiamento pela Fundação Bill & Melinda Gates, que apoia investigadores em todo o mundo a explorarem formas audaciosas e não-ortodoxas para a resolução de problemas de saúde pública em países em vias de desenvolvimento.
O projecto será desenvolvido em laboratório durante de 12 meses e será financiado em 100 mil dólares.
Se os resultados desta primeira fase forem promissores, o investigador pode ser de novo financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, com um milhão de dólares para a produção em larga escala das nanopartículas terapêuticas, e para testes in vivo aplicados em ratos e macacos.
João Gonçalves acredita que se os resultados forem positivos e depois de testados em doentes infetados, dentro de seis anos este medicamento poderá estar à venda.
Este é o segundo investigador ligado ao IMM a ser financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates, depois de, em 2010, Miguel Prudêncio vencer uma bolsa Grand Challenges Exploration para desenvolver uma vacina contra a malária.
Outra equipa de investigadores do IMM foi recentemente galardoada com o Prémio NEDAI/MSD de Investigação em Auto-Imunidade. O trabalho foi desenvolvido no Instituto Gulbenkian da Ciência e Serviço de Reumatologia do Hospital de Santa Maria, que aponta para avanços na prevenção da Artrite Reumatóide.