A questão da deficiência intelectual no contexto da dança e da inclusão foi o tema central da discussão de ideias que se realizou ontem no âmbito do 'I Encludança - Encontro Inclusivo de Dança'. A iniciativa que juntou profissionais de Espanha, Inglaterra, Portugal, Brasil e Holanda no Hotel Porto Santa Maria continua amanhã, com uma segunda sessão dedicada a discutir o conceito de dança inclusiva e a encontrar algumas orientações, metas, nomeadamente sobre onde querem chegar, para onde querem caminhar.
Documento conjunto
O resultado deste cruzamento de experiências dará origem a um documento geral, uma carta de intenções, se assim se pode chamar: "Cada um [país] tem a sua realidade, então não dá para uniformizar, mas dá para ter linhas mestras que definam o que se quer com isto, uma filosofia global que de alguma forma já existe", explicou Henrique Amoedo, director artístico da Associação dos Amigos da Arte Inclusiva - Dançando com a Diferença, que é responsável pela promoção do 'Encludança'.
Flávia Cintra, a convidada a quem foi entregue a elaboração do documento, explicou que a deficiência intelectual ainda representa o maior desafio, pois embora em alguns momentos dependa de menos recursos do que outras, precisa de um recurso que considera mais precioso: o recurso humano. "Essa é a rampa mais difícil de construir, a rampa humana. Porque a sociedade, nós transformamos, convencendo pessoas às vezes a dispor de um saco de cimento. E é suficiente. Agora mudar o comportamento, é um desafio maior".
Novas questões
A primeira parte deste encontro de ideias não fechou para já com conclusões e nem é obrigatório que estas sejam encontradas. O objectivo é formular perguntas e procurar respostas: "Fechamos com novas perguntas, mas é interessante porque trocamos de perguntas. Em encontros anteriores fazemos perguntas que hoje temos respostas (...) e não tem fim, porque quando tivermos as respostas destas, teremos novas", disse a jornalista e activista. "O importante é tentar perceber se estamos a andar em círculos", disse Amoedo, acrescentando que não se trata de olhar para um trabalho em particular, mas para este universo como um todo. Segundo o também coreógrafo, e falando no caso do Dançando com a Diferença, a profissionalização seria o passo seguinte ideal. Só que não é simples: "Estamos preparados para isso? São estas questões que estamos levantando de uma forma mais lata. O universo da dança está preparado para isto?", questiona, e responde: "Eu acho que tem muitas dificuldades, mas porque tem dificuldades de uma forma geral. Não tem a ver com a deficiência". Henrique Amoedo acredita que é uma questão de tempo, só não sabe se de muito ou pouco.
Uma luta solitária
Quem também acredita que poderá ser uma questão de tempo é Pedro Machado. Para este elemento da CanDoCo, o encontro é bom porque dá oportunidade às pessoas para se encontrarem, falarem e espairecerem, para poderem tirar um pouco da pressão dos ombros. "Mas gostaria em termos práticos de saber o que muda. Para onde vai daqui, o que é que vai mudar?", questionou. Segundo o coreógrafo, as pessoas que trabalham nesta área estão muito 'na linha da frente', numa luta solitária tentando descobrir um caminho. "Como é que sabemos se estas são as fórmulas, como é que podemos medir o sucesso? Quais são as metas? E isso talvez não conseguimos discutir", assumiu.
Falando sobre pontos de divergências, reconhece que às vezes existem diferentes metas. "A maior parte tenta apenas incluir, mostrar ao público que também são capazes. E alguns pessoas querem dizer capazes do quê? E a pergunta é o quê? Acho que às vezes ainda se está no processo de convencer e acho que temos de apurar... vamos fingir por um momento que está todo o mundo convencido: o que é que vamos fazer com isso? É isso que eu quero ver. É o passo seguinte", assume o co-director artístico da companhia inglesa que queria no 20º aniversário passar a apresentá-la apenas como uma companhia de dança.
O 'Encludança' continua hoje com uma conferência com Flávia Cintra moderada pelo director regional dos Assuntos Culturais, João Henrique Silva, às 10h30, no Hotel Porto Santa Maria; e com um depoimento de Gabriela Martin León, às 15 horas, no Ginásio de São Martinho.
Fonte: Dnoticias.pt