DISCUSSÃO
A surdez súbita é uma afecção bastante conhecida e estudada pelos médicos otorrinolaringologistas há longa data. Apesar de seus primeiros relatos terem sido feitos por De Kleyn em 1944, suas controvérsias e principais questionamentos continuam presentes até os dias de hoje. A etiopatogenia e o tratamento da surdez súbita talvez sejam as duas grandes indagações ainda presentes.
A – Etiopatogenia
Os inúmeros trabalhos a respeito da provável etiopatogenia da surdez súbita apontam em diferentes direções. A literatura mostra que são quatro as hipóteses etiopatogênicas mais aceitas e discutidas.
A hipótese do comprometimento vascular da orelha interna é sempre considerada com ênfase significativo. Desde os primeiros trabalhos de Perlman et al., em 1959, provocando a oclusão da artéria labiríntica e observando seus reflexos nos potenciais cocleares, até os trabalhos mais recentes de Guiral et al., em 1997, utilizando a Angio Ressonância Magnética Nuclear em pacientes portadores de surdez súbita e verificando alterações vasculares, em muitos destes pacientes, tornou-se evidente a participação de fenômenos vasculares em inúmeros pacientes com surdez súbita.
A hipótese etiopatogênica do comprometimento viral da orelha interna também conta com muitos relatos e estudos na literatura. A relação entre o vírus da caxumba e a surdez súbita, conhecida pelos otorrinolaringologistas, é estudada e demonstrada em alguns pacientes por Okamoto et al., em 1994. Porém, o grande revés da hipótese da teoria viral na surdez súbita é a impossibilidade de se comprovar a presença de titulações sorológicas virais significativas nas populações de pacientes com surdez súbita quando comparadas com a população controle normal (Yoshida et al., 1996; Pitkaranta, Julkunen, 1998).
A hipótese etiopatogênica da ruptura de membranas do labirinto membranoso, também conhecida como "teoria da fístula", teve grande aceitação mundial após os trabalhos de Simmons em 1968. Nos últimos anos, poucos trabalhos surgiram na literatura embasados nesta hipótese, que, com isso, vem deixando de ter uma aceitação mais ampla.
A hipótese etiopatogênica mais discutida, nos últimos anos, na literatura, é a auto imune. Já há vários anos se conhece a possibilidade de comprometimento auto imune da orelha interna. Com o desenvolvimento de novos exames diagnósticos mais sensíveis e, melhor elaborados, diversos autores têm aplicado testes imunológicos em pacientes com surdez súbita. Os resultados demonstram alterações significativas na população com surdez súbita quando comparada com a população controle normal. Estes autores são cautelosos em suas conclusões, mas finalizam sempre sugerindo a existência de processos auto imunes na orelha interna de muitos dos pacientes portadores de surdez súbita (Nordang et al., 1998; Heller et al., 1998).
A conclusão que se chega ao estudar as diferentes hipóteses etiopatogênicas para a surdez súbita é que se trata, certamente, de uma afecção multi-fatorial. Uma multiplicidade de mecanismos etiopatogênicos devem estar envolvidos. Para cada caso de surdez súbita, uma determinada etiopatogenia estará presente, sendo que sua comprovação continuará sendo muito difícil.
B – Tratamento
Visto que os mecanismos etiopatogênicos da surdez súbita são variados e estão envolvidos de forma diferenciada em cada caso, qual seria a forma ideal de tratar um paciente portador de surdez súbita? As controvérsias e as múltiplas formas de tratamento presentes na literatura são comprovações evidentes das dúvidas existentes sobre o tratamento ideal para a surdez súbita. Segundo relatam Mosnier et al. em 1997, a maioria das formas de tratamento descritas são dirigidas contra os dois principais fatores etiopatogênicos supostos: hipótese viral e hipótese vascular.
A atitude de não tratar a surdez súbita, proposta por Guyot et al. em 2000, ao observarem que o resultado audiológico final de pacientes tratados era igual ao de pacientes que se recusaram a receber tratamento, encontra resistência entre a maioria dos otorrinolaringologistas. Provavelmente estes médicos se sentem numa posição desconfortável ao não tratar uma afecção considerada grave e, freqüentemente, irreversível. Esta situação foi muito bem demonstrada por Louhran em 2000, ao receber respostas afirmativas de 89% dos médicos otorrinolaringologistas consultados por questionários sobre sua posição com relação ao tratamento da surdez súbita.
Os corticóides, como bem citam em seus trabalhos Mosnier et al. em 1997, são as drogas mais amplamente utilizadas, de forma isolada, ou em associações com outras formas de terapia. O seu fácil conhecimento de manuseio, pela maioria dos médicos otorrinolaringologistas, associado ao baixo custo e possibilidade de tratamento domiciliar, torna simples e prática a sua prescrição. Certamente continuarão a ocupar, por muito tempo ainda, posição de destaque entre as drogas preconizadas no tratamento da surdez súbita.
As drogas e terapias vasodilatadoras, muitas vezes associadas aos corticóides, são também muito citadas na literatura médica mundial. O uso do carbogênio, preconizado por Fisch em 1983, encontrou grande aceitação mundial a partir dos trabalhos de Nagahara et al. em 1983, que demonstrou, experimentalmente, um intenso efeito vasodilatador desta terapia na circulação coclear. Diferentes drogas vasodilatadoras são também citadas por diversos autores em numerosos trabalhos. À semelhança dos corticóides, as drogas vasodilatadoras, por serem medicamentos de fácil utilização pelos otorrinolaringologistas, ganharam ampla aceitação na prática médica. A justificativa do tratamento vasodilatador é baseada não só na hipótese etiopatogênica vascular, como, também, em qualquer outro tipo de acometimento da orelha interna pela surdez súbita; ao se melhorar a perfusão sangüínea da cóclea, pretende-se também melhorar as condições metabólicas e a capacidade de regeneração do órgão em sofrimento.
A utilização do Dextran 40 no tratamento da surdez súbita é bastante conhecida e utilizada por diferentes autores (Formigoni et al., 1998; Poser et al., 1992). O mecanismo de ação do Dextran 40 seria responsável por um incremento da perfusão sangüínea na microcirculação coclear, melhorando, portanto, a perfusão tecidual. Esta ação acarretaria benefícios semelhantes aos de terapias vasodilatadoras para a orelha interna.
A hemodiluição normovolêmica no tratamento da surdez súbita foi idealizada e inicialmente descrita por Dauman et al. em 1983. O mecanismo hemodinâmico desta forma de terapia é de fácil entendimento e aplicabilidade na surdez súbita. O paciente é submetido a uma sangria monitorizada, na qual, pela infusão simultânea de Dextran 40, é mantida a volemia normal. Desta maneira, obtém-se uma redução imediata e expressiva do hematócrito. Com um hematócrito baixo, diminue-se a viscosidade sangüínea e, conseqüentemente, aumenta-se o fluxo de sangue em geral. Este maior fluxo sangüíneo na microcirculação coclear acarreta uma melhor perfusão e oxigenação da cóclea. Os resultados descritos por Dauman et al., em 1983, são bastantes promissores. A partir destes estudos, a hemodiluição normovolêmica passou a ser utilizada, principalmente, em associações de tratamentos.
A oxigenioterapia hiperbárica, como tratamento para a surdez súbita, baseia-se na lógica de promover um aumento do nível de oxigênio sangüíneo, inclusive na circulação coclear. A partir de diferentes estudos, a oxigenioterapia hiperbárica passa a ser utilizada isoladamente ou em associações de tratamento. Uma aplicação interessante da oxigenioterapia hiperbárica, descrita por Murakawa et al. em 2000, é o tratamento de pacientes portadores de surdez súbita já submetidos a outras formas de tratamento sem sucesso; estes autores argumentam que, mesmo em fases mais tardias, em que os tratamentos em geral são bastante questionados, a oxigenioterapia hiperbárica poderia ter uma utilidade relevante.
O tratamento com o Amidotrizoate (Hypaque®) descrito por Morimitsu, Ushisako (1988), talvez pela falta de uma teoria fisiopatológica convincente que justifique a sua utilização, não encontra relatos mais recentes na literatura médica mundial de seu emprego no tratamento da surdez súbita.
A utilização da Ginkgo biloba (Hoffmann, 1994) e da Pentoxifilina (Leunig, 1995) foram propostas mais recentemente no tratamento da surdez súbita. Seu emprego em protocolos de tratamento, em associações com outras terapias, parece ser o caminho mais adequado para estas drogas.
A mais recente "novidade" no tratamento da surdez súbita é a chamada terapia H.E.L.P.. Seu mecanismo de ação torna lógica e interessante a sua utilização. Talvez seu emprego para casos selecionados, como por exemplo, em pacientes hipercolesterolenêmicos possa ser o maior trunfo desta terapia.
COMENTÁRIOS FINAIS
A surdez súbita está bem definida e conceituada como uma surdez sensorioneural de instalação abrupta com etiologia não definida. Seu diagnóstico apesar de parecer fácil, deve ser cuidadosamente investigado. Uma série de afecções, com etiologias bem específicas, podem desencadear um quadro de perda súbita de audição. Ao simularem um quadro de surdez idiopática, mascaram o diagnóstico preciso e, retardam, desta forma, o tratamento adequado. O exemplo clássico desta situação é o schwannoma do vestibular, que desencadeia, em cerca de 12% a 22% dos pacientes com o tumor, uma perda súbita de audição. A ressonância magnética, ou mesmo a angio ressonância se impõem como exames cada vez mais indispensáveis, na pesquisa do diagnóstico diferencial de um paciente acometido pela surdez súbita.
É inegável a preocupação e insegurança que o médico otorrinolaringologista sente ao se deparar com um caso de surdez súbita de diagnóstico inicial. A gravidade da situação e a freqüente irreversibilidade da surdez, por si só, já justificam a insegurança do médico e do paciente. Por se tratar de uma afecção de baixa incidência, poucos são os especialistas que têm uma vivência maior com o manuseio e tratamento de um paciente com surdez súbita. A incerteza da etiopatogenia e as inúmeras opções de tratamento disponíveis finalizam uma situação com difíceis tomadas de decisões. Na maioria das vezes, um tratamento ambulatorial com corticóides e vasodilatadores é prescrito, por ser de fácil aplicação e baixo custo. Perde-se, portanto, a oportunidade de individualizar cada caso com suas prováveis situações e comemorativos específicos, que poderiam levar a tratamentos diferenciados e mais voltados a suas mais prováveis etiopatogenias.
Fonte:Revista Brasileira de Otorrinolaringologia