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Autor Tópico: Filosofia em sinais  (Lida 2090 vezes)

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Offline Sininho

Filosofia em sinais
« em: 16/04/2010, 13:41 »
 

Como representar ‘abstração’ ou ‘metafísica’ com a linguagem de sinais? Pesquisadora da PUC-MG cria dicionário temático de filosofia em Libras para auxiliar o estudo de deficientes auditivos.

Platão e Aristóteles conversam e gesticulam em detalhe do quadro A Escola de Atenas, pintado em 1509 por Rafael Sanzio (1483-1520).

 [justify]Quem já estudou filosofia sabe que a disciplina lida com conceitos abstratos, muitas vezes complicados de serem compreendidos sem a ajuda de um professor. Essa dificuldade pode ser ainda maior se o estudante tiver algum tipo de deficiência auditiva. Imagine como traduzir, em sala de aula, noções como 'metafísica' ou ou ‘coisa em si’.
Como traduzir, em sala de aula, noções como 'metafísica' ou ou ‘coisa em si’?

Foi pensando em tornar mais fácil o estudo da matéria para esses alunos que a pesquisadora Terezinha Rocha decidiu criar um dicionário de filosofia na língua brasileira de sinais (Libras). Rocha é formada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e mestranda em educação pela mesma instituição. Pelo trabalho, a estudante recebeu o primeiro lugar da edição de 2008 do Prêmio Jovem Cientista na categoria ‘graduando’.

Em formato CD-Rom, o dicionário idealizado por ela apresenta a ‘tradução’ para Libras de cerca de 300 termos ligados à filosofia, que vão desde conceitos como 'alienação',  'consciência e essência', a nomes de pensadores. Como funciona? Por meio de uma versão filmada do sinal correspondente a cada um dos verbetes e sua definição acompanhada por exemplos.

A noção de metafísica, por exemplo, corresponde a um sinal feito por dois movimentos de mão. No primeiro, uma mão é colocada acima dos olhos, como se a pessoa estivesse olhando para algo que está por perto, como as coisas tangíveis. No segundo movimento, a mão é posta abaixo dos olhos, e o olhar é direcionado para cima, como numa tentativa de ver algo além.

A inspiração para elaborar o sinal, conta a pesquisadora, veio da etimologia do termo: em grego, metafísica significa algo que está para além do mundo físico.

Nomes de alguns filósofos, como Platão e Nietzsche, também foram transformados em sinais. Em ambos os casos, os pelos faciais dos pensadores foi o que chamou a atenção dos envolvidos com a pesquisa.
Platão é representado pela mão imitando a letra 'P', posta abaixo do queixo, fazendo referência à sua longa barba

Platão é representado pela mão imitando a letra 'P', posta abaixo do queixo, fazendo referência à sua longa barba, tal qual ele é mostrado no quadro Escola de Atenas, do pintor renascentista Rafael Sanzio (foto).

Já o filósofo alemão teve seu nome transformado num sinal que se refere ao seu bigode. As mãos são quase fechadas, formado uma letra 'C', e os dedos são colocados sobre a boca. “O bigode é a característica mais marcante do filósofo e também tem muito a ver com sua personalidade”, justifica Rocha.[/justify]

O vídeo abaixo mostra como aparece o conceito de 'abstração' no dicionário
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=uwDbDSpqst4&feature=player_embedded[/youtube]
[justify]A obra foi concluída em 2008 e atualmente a reitoria da PUC-MG está negociando com o Ministério da Educação sua produção em grandes tiragens e distribuição para as escolas do país. O material seria um auxílio para professores tanto da graduação, onde a filosofia já integra os currículos dos cursos, e do ensino médio, para o qual voltou a ser obrigatória em 2008 [PDF].

A expectativa da autora é que os termos sejam adotados por um número suficientemente grande de escolas de forma a permitir a padronização e consolidação de um vocabulário filosófico. Outras universidades já manifestaram interesse pelo projeto. “Várias escolas têm vindo aqui para conhecer o método e têm começado a adotá-lo”, conta Rocha. “Isso é muito bom, porque ajuda a evitar o regionalismo dos termos.”
Letra por letra

A ideia de fazer o dicionário, conta Terezinha Rocha, surgiu a partir de seu trabalho como intérprete de aulas de filosofia em uma turma mista, que tinha alguns alunos com deficiência auditiva. Ela percebeu então o quanto era difícil transmitir a explicação dos professores, já que cada palavra tinha que ser traduzida letra por letra pelo alfabeto manual, por não haver sinais específicos em Libras para expressar boa parte dos conceitos tratados.
“Eu me sentia frustrada por ter estudado filosofia e não poder ajudar a transmitir esse conhecimento para aqueles alunos”

A prática, chamada de datilologia, tomava tempo e, por isso, havia uma perda entre a última explicação do professor e a tradução. Além disso, essa conversão nem sempre era a mais adequada para a compreensão dos alunos, muitas vezes usuários maternos da língua de sinais.

No contato com outros intérpretes, Rocha percebeu que o problema não era apenas seu e, em parceria com o Núcleo de Apoio a Inclusão de Alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NAI) da PUC-MG, onde trabalhava, propôs a criação do dicionário. “Eu me sentia frustrada por ter estudado filosofia e não poder ajudar a transmitir esse conhecimento para aqueles alunos”, justifica.

O primeiro passo para concretização do projeto foi a realização de um levantamento com alunos surdos e intérpretes para saber quais eram os termos mais utilizados e os mais desafiadores. Em seguida, foi feita uma pesquisa para levantar quais termos já possuíam uma versão no sistema de sinais, e outra bibliográfica, para organizar os conceitos filosóficos que seriam discutidos.

Na segunda fase do projeto, foram organizados encontros com os alunos, intérpretes e educadores de outras instituições para que elaborassem, juntos, os sinais em Libras para cada um dos verbetes. As reuniões envolviam cerca de 20 pessoas e contavam com exposições sobre história da filosofia, para contextualizar o debate e dar condições ao grupo de cunhar os sinais. Para alguns termos, lembra Rocha, não foi possível chegar a um sinal, por isso ainda se usa a datilologia para representá-los, casos de palavras como 'ente', 'exegese' e 'cético'.

Concluída essa etapa, foram gravadas as imagens definitivas dos sinais para a confecção do CD-Rom pela TV PUC. Mais tarde, a fase inicial de estruturação do programa do computador foi realizada por alunos de vários cursos, como sistemas de informação. Ambos os trabalhos foram feitos voluntariamente, segundo a mestranda. O conhecimento adquirido com a elaboração do dicionário deverá ser aproveitado para a confecção de outros, de disciplinas como biologia e história.[/justify]
IN CIENCIAHOJE
Queira o bem, plante o bem e o resto vem...
 

 



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