O encantador de cães-guia
George e Pucca (Foto: Arquivo Pessoal)O instrutor George Harrison, fundador do Instituto Cão-Guia Brasil, e a cadela Pucca (Foto: Arquivo Pessoal)Julho de 2001. Copacabana, Rio de Janeiro. O carioca George Harrison, então com 25 anos, participava de um evento sobre veterinária e comportamento animal. Entre os palestrantes convidados, estava a brasileira de descendência russa Ethel Rosenfeld, ao lado de seu inseparável labrador de linhagem inglesa, Gem. Harrison ficou encantado com a sintonia com que os dois se comunicavam. Ela, cega. Ele, seu cão-guia.
Ethel perdeu a visão aos 13 anos, em um acidente cirúrgico. Um tumor havia sido detectado em seu cérebro. No dia da cirurgia, os médicos perceberam que não se tratava de um tumor maciço, mas líquido. Sua retirada deveria ser feita com uma agulha que, por acidente de percurso, atingiu o nervo óptico. Era 5 de julho de 1959. Naquele dia, Ethel perdeu, além da visão, todos os movimentos do pescoço para baixo. Nem deitada conseguia ficar direito. Faltava-lhe equilíbrio. Era contornada por travesseiros para não rolar da cama. Um ano e meio depois, após tratamentos e fisioterapia, recuperou os movimentos que havia perdido. Menos a visão. A medicina a considerava cega. Mas ela ainda “enxergava” sombras e borrões.

Certa noite de fevereiro de 1997, Ethel fazia tricô. Já era tarde, lá pras 23h. Como de costume, foi pegar um novelo na sacola em que sempre guardava lãs nas cores preta, cinza e branca – tonalidades que era capaz de distinguir. Naquela noite, todos os novelos se misturaram. Do nada, de repente, tudo ficou preto. Ela tentou, em vão, jogar os novelos sobre a mesa e, depois, os aproximou à parede branca para ver se conseguia identificar algum contraste. Nada. Sua mão encontrou o disjuntor na parede. Por alguns minutos, ficou apertando-o para cima e para baixo. Aos prantos, ligou para um amigo: “Fiquei cega!”. Com sono, ele respondeu: “Você está louca? Desde que te conheço você é cega”. Para ela, perceber sombras e vultos era um alívio, um ponto mínimo de referência. Perder o pouco que tinha foi desesperador. “Foi como fechar os olhos bem forte e não abri-los mais”, diz. Ethel tinha 49 anos.
Fonte:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2013/03/o-encantador-de-caes-guia.html