Num desastre climático, quem se preocupa com as pessoas com deficiência?Os governos estão a “falhar” na hora de incluir as pessoas com deficiência nos planos de acção climática, conclui uma análise publicada este mês na revista científica Nature Climate Change.
Andréia Azevedo Soares (texto) e José Alves (ilustração )
21 de Janeiro de 2023, 12:03

As pessoas com deficiência são “excluídas de serviços humanitários e de saúde” durante eventos climáticos extremos JOSÉ CARLOS ALVES
Apesar de a mudança do clima já estar a bater à porta do planeta, os governos globais estão a “falhar” na hora de incluir as pessoas com deficiência nos planos de acção climática. Esta é a ideia-chave defendida numa análise publicada, este mês, na revista científica Nature Climate Change.
“Em 2022, apenas 45 países faziam alguma referência a pessoas com deficiência, condições de saúde ou doenças crónicas nas suas políticas de adaptação climática. Esta é uma omissão flagrante em relação àquele que é o maior grupo minoritário do mundo”, lê-se no artigo assinado por quatro autores, entre eles o casal Penelope e Michael Stein, ambos afiliados à Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, em Cambridge, nos Estados Unidos.
Portugal está entre os países que estão a deixar a deficiência para trás no que toca à mudança do clima, de acordo com o relatório Direitos da Pessoas com Deficiência nas Políticas Climáticas Nacionais, divulgado em Novembro de 2022 e citado na análise.
“A conclusão deste artigo não me surpreende minimamente. Nunca me senti considerada nos planos de evacuação em situações de emergência. Sabemos que as pessoas com deficiência ficam muitas vezes para trás em desastres naturais – e o furacão Katrina foi um exemplo disso”, afirma ao PÚBLICO Catarina Oliveira, nutricionista, activista pelas pessoas com deficiência e autora da página @especierarasobrerodas.

Catarina Oliveira, nutricionista e activista pelas pessoas com deficiência PAULO PIMENTA
Esta falha está longe de ser um problema português. Os especialistas que elaboraram o relatório de 2022 do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) procuraram informação relativa a este grupo vulnerável e, no fim, encontraram apenas dados “quase negligenciáveis de inclusão”.
As pessoas com deficiência são “excluídas de serviços humanitários e de saúde” durante eventos climáticos extremos como inundações, ondas de calor e fogos florestais, conclui a análise publicada na Nature Climate Change.
Esta exclusão assume várias formas e quase todas são pautadas pela carência. Falta acessibilidade. Faltam conteúdos informativos adaptados. Falta formação específica para os profissionais que vão prestar apoio ou cuidados. Falta compilar estatísticas de morbidade e mortalidade. Falta recolher e tratar dados sobre esta minoria (distribuição geográfica, por exemplo). E, por fim, falta representatividade nos próprios grupos de trabalho que definem a acção climática em cada país no globo.
“Infelizmente, esta é uma problemática transversal. Somos sempre mencionados nos relatórios como um grupo vulnerável, é referida a importância de proteger estes mesmos grupos, mas depois não são apresentadas medidas concretas. E faltam dados. Se não caracterizarmos este grupo, se não soubermos como estas pessoas estão distribuídas, como vamos desenhar políticas públicas para protegê-las?”, indaga Catarina Oliveira.
Fonte: Publico