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Autor Tópico: Governante francesa Sophie Cluzel ao Expresso: “Pessoas com deficiência são trunfos valiosos para as  (Lida 33 vezes)

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Online Nandito

 
Governante francesa Sophie Cluzel ao Expresso: “Pessoas com deficiência são trunfos valiosos para as empresas”


22 novembro 2021 11:29
Daniel Ribeiro, correspondente em Paris
Jornalista




A secretária de Estado francesa Sophie Cluzel na inauguração do Café Joyeux em Lisboa
patrícia de melo moreira/afp/getty images


Em entrevista exclusiva ao Expresso, a secretária de Estado encarregada das pessoas com deficiência fala de como estes cidadãos são encarados e devem ser integrados em todos os setores da sociedade. Esteve em Lisboa para inaugurar o Café Joyeux, solidário e inclusivo

A partir desta terça-feira, 23 de novembro, Lisboa conta com um Café Joyeux. O estabelecimento abre na na calçada da Estrela, n.º 26. Inspirado num projeto empresarial de sucesso que nasceu há cinco anos em França, onde já há sete cafés-restaurantes deste género, o novo café lisboeta emprega pessoas com trissomia-21 e autismo. Sophie Cluzel, secretária de Estado responsável pelas pessoas com deficiência no Governo francês, defende que integrá-los é benéfico para as empresas.

Por que razão é em Lisboa que nasce o primeiro Café Joyeux fora de França?

Estamos na Semana Europeia do Emprego das Pessoas Deficientes, durante a qual é um muito bom símbolo abrir um primeiro café fora de França. Abre em Lisboa porque Portugal foi o primeiro país europeu a interessar-se por este conceito. Temos sete em França e todos visam favorecer a inserção profissional de pessoas que estão ainda longe do acesso ao emprego, como as que têm trissomia-21, autismo…

E funcionam bem, os resultados são bons?

Funcionam, porque as pessoas são bem enquadradas e tudo é feito para que funcionem com autonomia e apresentam bons resultados.

Tanto em França como em Portugal são associações que estão envolvidas neste projeto?

Não são associações, são empresas. São acompanhadas por associações especializadas em deficiência, mas são empresas normais, que também têm imperativos de rendibilidade e produtividade. Estamos a demonstrar que as pessoas nessa situação, nomeadamente com autismo ou trissomia-21, têm a sua utilidade económica.

Os Cafés Joyeux têm também como objetivo tornar visível a realidade da deficiência e demonstrar que os que ela afeta também podem trabalhar. Neste aspeto também funcionam?

Claro que funcionam. E não há apenas os Cafés Joyeux, há outros. Em França temos muitos restaurantes e outras empresas que empregam pessoas nessa situação, nos quais também são demonstradas, depois da sua formação e enquadramento, as suas competências e autonomia profissional, transformando-se em trunfos valiosos para as empresas.

Precisamente, quanto a resultados económicos, os Cafés Joyeux funcionam bem?

Em França temos um sistema de acompanhamento financeiro das empresas. Por exemplo, os Cafés Joyeux são juridicamente, e antes de mais, empresas. Temos acompanhamento financeiro, para lhes permitir compensar a produtividade ou o acompanhamento necessário para os empregados. Esse acompanhamento pode assumir várias formas: ajuda à criação de um posto de trabalho, apoio ao arranque do emprego (no que chamamos job coaching), ajudas à formação… o Estado está muito envolvido desde 2017, tanto no apoio a essas pessoas como aos empregadores.

Segundo as suas informações, Portugal também vai seguir esse caminho de acompanhamento financeiro e outros que a França adotou?

Estive com a minha homóloga [Ana Sofia Antunes, secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência] e falámos disso. Em França temos um sistema de quotas que obriga as empresas privadas e públicas a empregarem 6% de deficientes. Em Portugal foi posto em andamento, desde há dois anos e para um período de cinco anos, a obrigação de 2% para as grandes empresas e 1% para as mais pequenas.

Portugal está um pouco atrasado nesse domínio, em relação à França.

É um modelo diferente. Cada país na Europa está no caminho da inserção profissional ao seu modo.


O Presidente da República esteve na apresentação do Café Joyeux e, ao seu estilo, não resistiu a tirar uma ‘selfie’
embaixada de frança em portugal


O facto de o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ter estado na inauguração do Café Joyeux de Lisboa tem para si importância?


Evidentemente. O Presidente Emmanuel Macron também esteve na inauguração do Café Joyeux nos Campos Elísios, em Paris. Em Lisboa, é muito importante o envolvimento de um Presidente da República e de outras personalidades, como o presidente da Câmara, a secretária de Estado, a embaixadora de França, nesta política inovadora de dizer ao mundo inteiro que os deficientes são competentes.

Dá mais visibilidade a essa política.

É um projeto de sociedade, humanista, de um país que diz: “Todas as pessoas deficientes devem poder ter acesso ao emprego e ser úteis em vários aspetos, designadamente nos do valor do trabalho e nos económicos, de afirmar que ninguém será deixado na berma da estrada”.

No que respeita à Europa, não seria necessária uma política comum a todos os países nesse domínio? Tem havido avanços?

Temos perto de 85 milhões de pessoas em situação de deficiência na Europa. E são 15% da população mundial. É um problema global. Multiplico contactos e durante a próxima presidência francesa da UE [no primeiro semestre de 2022] tenho um encontro com todos os meus homólogos, a 9 de março, onde o tema da inclusão será importante. O job coaching é fundamental e vamos trabalhar sobre a mobilidade das pessoas, nomeadamente dos estudantes deficientes, porque é preciso criar um Erasmus para eles, dar-lhes igualdade e as mesmas hipóteses a todos. Nesse aspeto é necessária também a reciprocidade.

Quer dizer que não funciona muito bem, falou no Erasmus que ainda não arrancou.

Com a crise de covid fomos um pouco travados, mas a ideia é a que acabo de lhe dizer.

Há também o problema da mudança da forma como a sociedade olha para as pessoas com deficiência. São necessários discursos e ações concretas como os Cafés

Pois. Reparou que ando com um pin que diz ‘Duoday’? Trata-se de um acontecimento europeu durante o qual as empresas privadas e públicas abrem as portas para um dia de trabalho com uma pessoa deficiente. Trata-se de sensibilização, de lutar contra os preconceitos, lembro que 80% dos deficientes são invisíveis. Trata-se de permitir que exprimam os seus talentos. No ano passado, mesmo com a covid, fizemos em França mais de 10 mil ‘duos’ e 10% desembocaram em inserção profissional. Precisamos de uma pedagogia em permanência, porque em França, e penso que também em Portugal, a representação da deficiência é a cadeira de rodas e a bengala branca.

Há muito por fazer.

Sim. É preciso comunicar, criar acontecimentos, falar nos media. Em França, o próprio Presidente Macron participou no ‘duoday’. Lançar campanhas como temos feito em França sob o lema: “É preciso ver a pessoa antes da deficiência. É preciso também permitir aos deficientes que falem da sua deficiência. A questão é esta: tentar diminuir a sua invisibilidade que já lhe falei.

Falou de quotas. As empresas francesas estão mesmo a cumprir esse objetivo de 6%?

Não. Tenho de as acompanhar para andarem mais depressa. Há 30 anos que temos as nossas quotas e estamos apenas a 3,8% no sector privado. Nas administrações públicas e territoriais estamos perto dos 6%. Estamos a financiar a aprendizagem e formação dos deficientes, mas fazemo-lo em situação profissional, o que é importante e faz a diferença.

Em França os deficientes são recrutados pelos recursos humanos das empresas como toda a gente, ou por especialistas?

faço para recrutar uma pessoa deficiente? Primeiro ponho-a em confiança, para que declare a sua deficiência. Depois faço o que se chama o recrutamento inclusivo, porque há um problema de posicionamento: ao mesmo tempo dizemos “as quotas!”, mas respondem-nos “Não se pode fazer ‘discriminação positiva’”. É a questão do princípio da igualdade de oportunidades para todos. Um empregador não pode dizer “Procuro um deficiente”, antes “Com competências iguais, posso contratar”. A verdade é que ainda não estamos, na Europa, à vontade com a deficiência.

Mas há especialistas a trabalhar nesse domínio?

Sim. Há acompanhamento por especialistas, salões virtuais, mas o que quero é que os serviços de emprego em França trabalhem nesse sentido. Um serviço especializado à parte, que já tivemos no passado, não funciona. Não há má vontade dos empregadores, é preciso é mudar as coisas.

É preciso integrar no conjunto?

Exatamente. É o direito comum, sempre o direito comum.


O Presidente da República com a presidente da Vilacomvida, Filipa Pinto Coelho, e secretária de Estado de França para as pessoas com deficiência, Sophie Cluzel, e a embaixadora de França em Portugal, Florence Mangin
patrícia de melo moreira/afp/getty images


O sonho de um mundo mais harmonioso, com um olhar diferente sobre a deficiência e o acesso ao emprego ainda está longe…

É preciso avançar na pedagogia e combater os medos e fazer cair aos poucos os clichés e preconceitos. Os deficientes precisam de circular, trabalhar com os outros, de estudar na escola com os outros, é assim que mudaremos a sociedade, o que é verdade em relação a toda a diversidade. Quando nasceu a minha filha que tem trissomia-21 eu fiquei no início sem saber o que fazer.

Posso fazer-lhe uma pergunta sobre a sua filha? Como se passaram as coisas, ela trabalha?

Tenho quatro filhos, eu trabalhava numa empresa, trabalhei em várias, em diversos países, quando nasceu a Júlia. Parei de trabalhar — tive a sorte de o poder fazer porque o meu marido também trabalhava —para a acompanhar e lancei-me no sector associativo, como fazem muitos outros pais em situação idêntica. No meu caso, a associação ajudava na vida escolar, fiz isso durante 15 anos. Sabe, a deficiência faz muitas vezes explodir os casais e as famílias, está na origem de divórcios… no nosso caso solidificou-nos. Depois encontrei-me com o então candidato à presidência Emmanuel Macron, como encontrei outros, para o sensibilizar para essa questão. Quando ele foi eleito, pediu-me para entrar para o Governo e a única coisa que eu lhe pedi, que penso ser transformadora e importante, foi de ficar ligada diretamente ao primeiro-ministro e de não ficar só no Ministério da Saúde. Isso permite que todos os meus colegas ministros tenham sempre orientações sobre inclusão e deficiência em todos os sectores, no desporto, na cultura, na justiça, por todo o lado. Cada lei tem algo sobre deficiência. Quanto à minha filha, trabalha, sim.

Tenho entre os meus amigos uma família que teve um filho com trissomia-21. Agora está tudo bem, mas passaram por momentos difíceis, culpabilizavam-se muito no início.

Pois, é quase sempre assim, por isso é preciso um acompanhamento humano, por isso as associações são muito importantes. Há sempre essa culpabilidade: ‘falhámos nalgum lado, a culpa é de quem?’, é muito duro, é preciso que a família não fique sozinha. Mesmo a inovação tecnológica ajuda, os próprios deficientes fazem avançar a tecnologia, obrigam as empresas do ramo, por exemplo dos telefones, a avançarem com inovações que os favorecem.

Sobre Portugal tenho aqui alguns números: há menos de 0,5% de deficientes a trabalharem em empresas privadas que tenham pelo menos 10 trabalhadores e 2,3% na administração pública. Em relação à França estamos bem atrasados.

Por isso o Governo se lançou de forma decidida para enfrentar esse problema e desde há dois anos que estabeleceu as quotas. Ao contrário, Portugal está mais avançado do que a França por exemplo na ‘escola inclusiva’…

Concluindo com uma questão política. Os populismos sobem em toda a Europa, em França, Marine le Pen e Éric Zemmour, em conjunto, têm cerca de 30% das intenções de voto para as presidenciais de abril de 2022. Como vê isso, sobretudo em França?

Vejo isso com enorme inquietação. É exatamente o contrário, é o inverso, da sociedade que eu defendo, que é inclusiva, porque considero a diversidade uma riqueza. Esses populistas alimentam-se com os medos, defendem que nos fechemos sobre nós próprios, propõem a exclusão dos outros, sejam quem forem, é o ódio do outro. Os discursos deles sobre a imigração são alucinantes. Temos de os combater alto e fortemente.



Fonte: expresso.pt           Link: https://expresso.pt/internacional/2021-11-22-Governante-francesa-Sophie-Cluzel-ao-Expresso-Pessoas-com-deficiencia-sao-trunfos-valiosos-para-as-empresas-81c040d1
"O Senhor detesta o caminho dos ímpios, mas ama quem busca a justiça"  Provérbios 15:9"
 

 



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