Uma empresa de telemarketing, designada “Fátima Solidária”, anda a enganar empresas de Norte a Sul do País. Segundo o Notícias de Fátima apurou, a empresa, que se faz passar por um centro de deficientes, telefona para as empresas e tenta vender-lhes cabazes com material de escritório ou produtos de limpeza, referindo que o dinheiro reverte na totalidade para o CRIF - Centro de Recuperação Infantil de Fátima e CRIO – Centro de Recuperação Infantil Ourém.
As empresas nem sempre acreditam. Algumas delas contactaram o CRIF a confirmar se o dinheiro revertia efectivamente a favor da instituição, que foi apanhada de surpresa, já que não tinha qualquer conhecimento.
Paula Abreu, directora pedagógica do CRIF, contou ao Notícias de Fátima que houve um indivíduo que comprou muito material. “Nós achámos estranho”, afirma. Mas ele “contou-nos que teve um acidente”, que o deixou com algumas deficiências e mais sensível para a questão da deficiência, pelo que decidiu abrir uma loja de artesanato feito pelos utentes dos diversos centros de deficientes do País, nomeadamente o CRIF. As receitas obtidas reverteriam a favor das respectivas instituições. Apesar de não aparentar ter qualquer tipo de deficiência, Paula Abreu não duvidou das boas intenções do homem. Além disso, comenta”, comprou os artigos e pagou”.
Entretanto, acrescenta, começaram a chegar ao CRIF “ecos de pessoas que tinham sido contactadas por uma empresa de telemarketing a oferecer produtos para ajudar o CRIF. Caso aceitassem contribuir, recebiam em troca uma lembrança feita pelos utentes da instituição”, que já alertou GNR. Paula Abreu esclarece que a empresa “está a utilizar o CRIF indevidamente” e garante que as receitas não revertem a favor do centro.
Contactado pelo Notícias de Fátima, o CRIO também não está a par da situação. “Não sabemos de nada”, afirma Vítor Cordeiro, coordenador administrativo da instituição, acrescentando: “Eles vieram comprar coisas insignificantes, mas não sabemos quem é essa empresa”.
Acusada de explorar funcionários
Fátima Solidária é também acusada de explorar os funcionários. De acordo com uma das ex-funcionárias, que pediu anonimato, são incentivados a dizer que são deficientes. Segundo referiu, recusou-se sempre a fazê-lo. Além disso, são obrigados a dizer que trabalham num centro de deficientes.
Depois de ter estado a trabalhar lá durante três meses, foi despedida sem causa aparente. “Estive três dias em casa com o meu filho, mas levei justificação”, conta, acrescentando que insistiu em saber o motivo do despedimento: “A empresa não vê com bons olhos o facto de se ficar em casa com os filhos”. Foi a resposta que obteve. “Ele (proprietário e gerente) queria dar-me a chave da empresa, dizia-me que eu era uma funcionária impecável, comprei carro, na altura estava colectada tirei a minha colecta, o meu filho passou a ir e vir no autocarro da escola (mais 35 euros por mês), acabei por fazer investimentos desnecessários…”, afirma, referindo que só lhe fizeram o contracto de trabalho no mês em que foi despedida.
Queixa-se também do salário. “Nós trabalhávamos simplesmente à comissão”, afirma, referindo que recebiam, quase sempre 100 euros por mês, independentemente das vendas que faziam. “Ele diz que só paga a quem quer, o que quer, quando quer e como quer”, diz. E continua: “Uma colega trabalhou um mês inteiro, oito horas diárias e o valor que ele apresentou foi um valor que não se dá nem a um garoto”. A colega acabou por sair. “As pessoas estão constantemente a entrar e a sair. Eu estive lá três meses e dei formação a mais de 20 pessoas, havia pessoas que estavam dois ou três dias e iam-se embora, aquilo não é futuro para ninguém…”
Os funcionários também são alvo de pressão. “Tínhamos um quadro na parede com o nome de cada trabalhador e quanto é que fazíamos diariamente”, conta, acrescentando: Tínhamos de fazer no mínimo dois mil euros por semana e quem facturasse mais tinha um prémio de 20 euros, era um absurdo…”.
No rol de queixas, está também a falta de condições das instalações da empresa, a funcionar na cave do edifício situado junto à Rotunda Norte. “Trabalhávamos de porta fechada, estamos metidos numa cave, não tem janelas, não tem uma porta, é gelado, é horrível…”, afirma a ex-funcionária, que vai apresentar queixa em tribunal, caso não consiga chegar a um entendimento. “Quero que ele perceba o mal que está a fazer às pessoas”, esclarece, desvalorizando a indemnização que possa vir a obter.
Segundo apurámos, a Inspecção do Trabalho e a GNR já estiveram no local. Mas continua de portas abertas.
Esclarecimento
A empresa Fátima Solidária, Unipessoal Lda está, efectivamente, matriculada no Conservatória do Registo Predial/Comercial de Ourém, mas como sociedade comercial, pelo que não pode alegar que é uma instituição sem fins lucrativos.
A título de curiosidade, referimos que existe no concelho uma associação com a mesma designação - Associação Fátima Solidária. Esta sim sem fins lucrativos. Foi constituída em 2008, pelo então presidente da Câmara de Ourém, David Catarino. Além do ex-autarca, fazem parte desta associação nomes como Agostinho Xavier Fernandes Ferreira, António Baptista, Leonilde madeira, Purificação Reis, Vítor Frazão, Deolinda Simões.
A associação tem por objecto: a educação, formação profissional dos cidadãos; apoiar a integração social e comunitária; promover e proteger a saúde, bem como actividades de solidariedade e cooperação nacional e internacional, principalmente com os países de língua oficial portuguesa.
Fonte: Noticias de Fátima