Qual é o lugar do braille num mundo cada vez mais digital?
Leitores de ecrã, inteligência artificial e diversos dispositivos electrónicos multiplicam as formas de acesso à informação, mas reacendem uma questão: que lugar ocupa hoje o braille na vida das pessoas cegas? As vozes de Ana Nascimento, do professor Leonardo Silva, de Filipe Azevedo da ACAPO, e da professora Cristina Bento apontam no mesmo sentido, sem braille, não há verdadeira literacia.
Ao longo dos tempos, o braille tem sido o principal meio de acesso à leitura e à escrita para pessoas cegas. Baseado em seis pontos em relevo, permite representar letras, números, sinais e símbolos, garantindo o contacto direto com a forma escrita através do tato.
Ana Nascimento, pessoa cega desde nascença, teve contacto com o braille ainda no infantário, na Ilha da Madeira. “Era com esse código que eu ia trabalhar no ensino primário e por aí adiante”, recorda, sublinhando que aprender braille foi uma necessidade incontornável: “Tive mesmo que aprender o braille para conseguir fazer a escolaridade toda”.
Ao contrário do áudio, o braille possibilita o contacto direto com a grafia, sendo especialmente relevante no contexto educativo, em que ouvir não substitui o ato de ler e escrever.
Importa esclarecer que o braille não é uma língua, mas sim um código de leitura e escrita que pode ser aplicado a diferentes idiomas, como a língua portuguesa. Nesse sentido, o braille funciona como uma ponte de acesso à língua, permitindo às pessoas cegas ou com baixa visão, não só ler e escrever, mas também interagir com tudo o que a linguagem representa: comunicação, conhecimento, cultura e participação plena na sociedade.
Na perspetiva de Ana Nascimento, uma pessoa cega que não domine o braille enfrenta limitações profundas. “Fica à parte do mundo por não conseguir interagir com os conteúdos”, afirma, associando a leitura à participação social e ao acesso ao conhecimento.
Esta perspetiva é partilhada por Leonardo Silva, também ele cego e professor com experiência no ensino a alunos cegos e com baixa visão. Para o docente, o braille tem demonstrado capacidade de adaptação, integrando-se no digital através de linhas braille e outros dispositivos. Ainda assim, sem o domínio do braille, “não é possível falar de verdadeira literacia”, apenas de um acesso parcial à informação.
No contexto educativo, esta valorização é igualmente defendida por Cristina Bento, professora na Escola Rodrigues de Freitas, no Porto. Para a docente, o braille é “absolutamente fundamental” na aprendizagem, por permitir desenvolver competências reais de leitura e escrita. “A tecnologia pode facilitar o acesso à informação, mas o braille continua a ser essencial para consolidar aprendizagens”, sublinha.
Ainda assim, Leonardo Silva reconhece uma diminuição do uso do braille entre os alunos, associada ao imediatismo do áudio. Para o professor, o áudio deve ser encarado como complemento e não como substituto, por não permitir a compreensão plena da escrita, da ortografia ou da estrutura textual.
As fragilidades identificadas encontram eco na análise da ACAPO. Filipe Azevedo sublinha que o braille continua a ser um pilar essencial da autonomia e da cidadania. No entanto, alerta para o risco de afastamento precoce da escrita braille entre as novas gerações, motivado pela facilidade das soluções tecnológicas e pela falta de acompanhamento especializado.
Cristina Bento alerta também para os limites do áudio: “Ouvir não é o mesmo que ler”. O recurso excessivo pode comprometer a consolidação da ortografia e da estrutura das palavras. À semelhança de outros docentes, aponta ainda o atraso e a falta de materiais em braille como um problema persistente, que coloca os alunos cegos em desvantagem. A estas dificuldades soma-se o elevado custo dos mesmos, desde impressoras braille a equipamentos do quotidiano, reforçando a ideia de que a inclusão continua, muitas vezes, dependente da capacidade económica dos utilizadores.
Contudo, nem todas as pessoas com deficiência visual dominam o braille. Algumas recorrem a softwares de ampliação, enquanto outras, mesmo sendo cegas, não o utilizam devido a fatores como a idade em que surgiu a deficiência visual ou dificuldades no processo de aprendizagem. A crescente utilização das novas tecnologias veio reforçar alternativas de acesso à informação, muitas vezes mais rápidas e imediatas.
Ana Nascimento considera estas situações diferentes, reconhecendo que quem perde a visão em idade adulta não pode ser considerado analfabeto, por já ter tido contacto prévio com a escrita.
A madeirense assume que, no quotidiano, a presença do braille continua a ser irregular. Ana Nascimento aponta a escassez de informação em braille em produtos comuns, como embalagens ou prazos de validade, sendo a medicação uma das poucas exceções.
Filipe Azevedo, secretário da direção da delegação de Braga da ACAPO acrescenta que a ausência de braille manifesta-se também em pequenos detalhes do quotidiano. Filipe Azevedo aponta o exemplo dos elevadores, apesar de os botões incluírem braille, nem sempre existe informação sonora. Como solução simples, sugere a colocação de identificação em braille no exterior do elevador, em cada piso, permitindo confirmar o andar após a saída.
Em Portugal, entidades como a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) desempenham um papel fundamental na promoção do braille, através de ações de formação, sensibilização e divulgação. No entanto, o ensino do código enfrenta problemas estruturais persistentes, como a escassez de professores especializados, sobretudo nas áreas científicas, os atrasos na disponibilização de manuais adaptados e a inadequação de muitos materiais digitais.
Este cenário revela que o principal problema do braille não reside na sua utilidade, mas na falta de investimento, planeamento e apoio continuado. É neste contexto de coexistência tecnológica e fragilidade estrutural que se coloca a questão da sua atual relevância: estará o braille a adaptar-se aos novos tempos ou corre o risco de se tornar secundário?
Leitores de ecrã, computadores e telemóveis equipados com tecnologias de apoio permitem hoje maior autonomia no quotidiano das pessoas com deficiência visual. Ainda assim, estes avanços levantam uma questão central: poderá o braille ser substituído pela tecnologia?
Embora utilize atualmente mais o computador e os leitores de ecrã, Ana Nascimento rejeita a ideia de que a tecnologia substitua o braille. “Para mim é diferente, porque sou eu que estou a ler”, afirma, destacando a leitura braille como uma experiência ativa e controlada.
A introdução da inteligência artificial (IA) surge, neste contexto, como uma oportunidade. Leonardo Silva defende que a IA pode potenciar o braille, permitindo o acesso tátil a textos gerados digitalmente e facilitando a adaptação de materiais escolares. A descrição automática de imagens em manuais, a revisão do braille impresso ou a utilização de códigos QR associados a conteúdos acessíveis são alguns exemplos. O desafio, considera o professor, passa por garantir que estas ferramentas reforcem a leitura e a escrita em braille, evitando uma dependência exclusiva do áudio.
Neste contexto, a questão deixa de ser se o braille está a morrer e passa a ser se está a ser suficientemente apoiado.
Através dos testemunhos de Ana Nascimento, Filipe Azevedo, Leonardo Silva e Cristina Bento, percebe-se que o braille resiste, adapta-se e mantém a sua relevância, mas encontra-se num equilíbrio frágil entre a inovação tecnológica e a falta de investimento. “Eu tenho medo que o braille se acabe”, refere Ana Nascimento, não por o braille perder utilidade, mas por ser progressivamente deixado para segundo plano.
Fonte:
https://mailchi.mp/b3e4d1698c8e/forum-municipal-das-pessoas-com-deficiencia-newsletter-agosto-17446112?e=34a05473ea