Medo e crise impedem ida ao dentista
O medo e a falta de dinheiro e de informação afastam os portugueses da cadeira do dentista. Portugal é dos países da Europa que têm pior saúde oral, com quase todas as crianças a apresentarem pelo menos uma cárie e com elevado número de idosos sem dentes. Cáries, doenças gengivais, falta de dentes e dores articulares, resultantes da falta de tratamento e de reabilitação incorrecta, obrigam muitos portugueses a enfrentar a temível broca do dentista.
O especialista Ricardo Marques aponta o dedo ao Estado pelo desinteresse na instrução de crianças, adultos e idosos para as boas práticas de saúde dentária, e na adopção de programas de promoção da higiene oral nas escolas e nos lares de terceira idade. Para este especialista em Medicina Dentária, medidas como os cheques-dentista para idosos, crianças ou grávidas são "populistas e pouco abrangentes". Outro problema é a organização do Serviço Nacional de Saúde, que fica aquém das necessidades: "Faltam médicos nos centros de saúde", acusa. Há também um obstáculo cultural. "Temos uma cultura superpenalizadora do dentista e uma falta de apelo à estética dentária", critica o especialista, para quem a má higiene oral é um problema "estrutural".
A dor é o sintoma, e o tratamento passa por ir ao dentista, pelo menos uma vez por ano. A prevenção é o remédio: alimentação cuidada, escovagem dos dentes várias vezes ao dia com uma pasta rica em flúor, passar a fita dentária e bochechar com elixir. "O adiar dos problemas da medicina dentária gera outros mais complexos, caros e penosos", adverte Ricardo Marques. A saúde oral condiciona o bem-estar, e a falta de tratamento, ou quando este não é apropriado, leva a outros problemas: enxaquecas, mau hálito ou doenças gástricas. A ausência de um sorriso perfeito reflecte-se na auto-estima. Preocupantes são também as faltas ao trabalho.
Cerca de 100 euros anuais bastam para manter os dentes saudáveis. A ausência de idas ao dentista pode custar 30 mil euros. "Poupam-se milhões em consultas e antibióticos, reduzem-se as baixas e os atrasos no trabalho", alerta Ricardo Marques, lamentando que a "saúde oral não seja uma prioridade no País".
DISCURSO DIRECTO
"FOI DISTRIBUÍDO UM MILHÃO DE CHEQUES-DENTISTA", Rui Calado, Coord. do Programa de Promoção da Saúde Oral
– Os programas de promoção da saúde oral são suficientes?
– Estão a ser desenvolvidos de forma satisfatória. Garantimos o acesso dos grupos mais vulneráveis ao dentista. Já há muitas crianças sem cáries, e queremos alargar a atribuição de cheques--dentista a pessoas infectadas com o vírus da sida.
– A saúde oral é uma prioridade?
– Em 2010, foi dos únicos programas que não sofreram cortes no orçamento e, nos últimos dois anos e meio, conseguimos entregar um milhão de cheques-dentista. Isto demonstra bem a dedicação do Estado.
– Faltam dentistas nos centros de saúde?
– Não é preciso construir consultórios nos centros de saúde. Aí há higienistas orais que prestam cuidados de prevenção primários. Para os casos mais graves, temos 3800 profissionais que têm um acordo com o Serviço Nacional de Saúde, a operar em consultórios privados.
ESTÉTICA FACIAL ASSOCIADA AO SORRISO
Dissociar a perfeição do sorriso da do rosto não faz sentido. E, apesar de os portugueses estarem pouco atentos e pouco conscientes para a importância de uma boa saúde oral, há um pequeno grupo que, mesmo com a actual crise, gasta mais de três mil euros na busca da perfeição. Em alguns casos, essa perfeição já existe, mas ainda há espaço para melhorias. Colocar aparelho e branquear os dentes são técnicas completamente ultrapassadas. Actualmente, através de uma tecnologia não invasiva, corrigem-se pequenos defeitos na forma do nariz ou em algumas rugas e alia-se o rejuvenescimento facial ao sorriso perfeito. "Estética já" é o lema, pois em apenas um dia é possível sair com um sorriso completamente novo.
O MEU CASO: FERNANDA GONÇALVES
"ESCONDI O MEU SORRISO"
"Durante muitos anos escondi o meu sorriso." O desabafo é de Fernanda Gonçalves, que desde os vinte anos usava uma prótese dentária. "O meu maior sonho era ter um sorriso bonito." Actualmente com 59 anos, Fernanda fez implantes dentários e tem um novo motivo para sorrir.
À medida que a colocação dos implantes se aproximava, aumentava o nervosismo e a ansiedade: "Tive receio da dor, mas não custou nada. Ter estado durante sete horas com a boca aberta apenas foi desconfortável." Mas a satisfação ao ver o resultado final compensou. "Hoje, sinto--me outra pessoa, detestava a minha imagem, sentia-me incomodada com os dentes postiços", conta esta especialista em seguros, que lida diariamente com o público e para quem um sorriso bonito é um bom cartão de visita. "Estou muito contente com o resultado", sublinha Fernanda, que reside na Amadora. O preço dos implantes, vinte mil euros, foi difícil de suportar, mas o resultado compensou o esforço.
A higiene e saúde oral são uma prioridade para Fernanda. Vai uma ou duas vezes por ano ao dentista, tem o cuidado de escovar os dentes após as refeições e procura ter uma alimentação saudável, pobre em açúcar. "As pessoas têm de tratar da saúde oral, é fundamental para se sentirem bem com a sua aparência, e não custa nada ir ao dentista", aconselha.
CM