A mãe que abandona um filho já foi abandonada - por todos Só uma situação de desespero pode levar uma mãe a abandonar o seu filho recém-nascido, dizem os especialistas. E é por vergonha que não opta por dá-lo para adopção, pelas vias legais. Mas se é a mãe que abandona, onde está o resto da família?
O que leva uma mãe a abandonar um recém-nascido?Todas as situações são diferentes, mas há aspectos invariáveis, dizem os especialistas. "Só numa situação de desespero e de um desespero cumulativo é que este tipo de actos é possível", afirma o psicólogo Eduardo Sá. Tal como sublinha a magistrada Dulce Rocha, presidente do Instituto de Apoio à Criança, "a mãe não está bem psicologicamente. Não vê outra saída, está fragilizada e desesperada". Mais ainda: "Só os abandonados se tornam abandonantes", afirma, sem hesitar, Eduardo Sá. "Estas mães são, de certeza, pessoas com vidas muito complicadas e situações familiares terríveis. Falamos da mãe, mas não podemos esquecer o presumível pai e as respectivas famílias." Podemos estar perante mulheres que foram abandonadas pelo companheiro ou que são vítimas de violência doméstica.
O abandono é um acto premeditado?"Ninguém abandona num impulso, é um acto demasiado dilacerante de uma pessoa que vive num inferno de contradições e num ausência de relações acolhedoras", diz Eduardo Sá. Assim, e tendo em conta que "uma gravidez não pode passar à margem de pelo menos duas ou três consultas de obstetrícia", este psicólogo conclui que "é muito triste perceber que as maternidades e centros de saúde são pouco sensíveis a estas situações ou não estão preparadas para elas." Nove meses é muito tempo. Um médico que acompanha uma grávida deve ficar de alerta se ela falta aos exames e perceber se ela está deprimida.
Porque é que uma mulher tem um bebé que não deseja?Hoje em dia, uma mulher pode recorrer ao aborto legal facilmente, sem custos e com apoio médico do Serviço Nacional de Saúde. Mas opta por não o fazer. Como explica Eduardo Sá: "Um acto de abandono tem algo de bondade, pode ser um apelo. A pessoa reconhece que não tem condições para ter um filho, mas não quis obstaculizar ao seu nascimento, o que poderia facilmente fazer." Uma mulher que abandona o seu filho junto de outras pessoas (a maioria das vezes na maternidade ou em locais onde será rapidamente encontrado) quer que ele tenha uma vida e uma família, o que é bastante diferente de abandoná-lo para morrer, num local onde dificilmente será salvo. Neste caso, as perturbações psicológicas podem ser mais profundas.
E porque não entregá-lo para adopção?Essa opção exige o apoio da família e a concordância do pai e, muitas vezes, estas são mulheres que ocultaram a gravidez ou que não têm qualquer apoio familiar, explica Dulce Rocha. Além disso, existe o estigma. "Por mais que não seja formalmente julgada, uma mãe que dá o seu filho para adopção é sempre julgada pela sociedade. Há comentários que inibem este gesto, muitas vezes até na maternidade", critica Eduardo Sá. "É mais fácil abandonar depois." Anonimamente.
No caso de a mãe ser encontrada, poderá reatar a relação?Uma mãe só abandona um recém-nascido nestas condições porque não estabeleceu qualquer vínculo afectivo com ele. Houve uma rejeição que começou, muito provavelmente, antes ainda do nascimento. No entanto, em certos casos, "é possível voltar a unir a mãe ao filho mas depende da sensatez com que isso se faz e da exposição que não se tenha", avisa Eduardo Sá. "Era importante que, nesse caso, a comunicação social resguardasse a identidade da mãe e do filho porque a opinião pública é um tribunal sumário que marca para toda a vida."
O que acontece a uma criança abandonada? Deve ser adoptada?Sim, e quanto mais rapidamente, melhor, dizem os especialistas. "O abandono representa uma rejeição da mãe. Se a mãe não quis a criança, então para quê esperar?", pergunta Dulce Rocha. No entanto, nestes casos, a Polícia Judiciária tem de procurar a mãe, já que o abandono é um crime punível por lei. Entretanto, a Comissão de Protecção de Menores é chamada a intervir e a criança é enviada para um centro de acolhimento. Se a mãe for encontrada, tenta-se perceber se ela ou a família têm condições e vontade para receber o bebé. Caso contrário, o tribunal entrega a criança para adopção. Todo o processo pode demorar meses mas, mesmo assim, será mais rápido do que as adopções de crianças que tiveram contacto com a família. A adopção é a melhor solução e quanto menos tempo a criança estiver num centro de acolhimento melhor, diz Eduardo Sá. De qualquer forma, o caso deve ser acompanhado: "Um abandono deixa sempre uma cicatriz que jamais se pode ignorar, mesmo que seja encontrada uma família reparadora."
in DN